quinta-feira, março 27, 2014

nulla die sine linea

Estava chateado, não estava claro exatamente o porquê, quer dizer, o porquê sim, mas era estranho o como aquilo funcionava na minha cabeça... Era uma partida perdida, de inicio, não ia dar pé, lembrei de quando quase me afoguei no Caribe mexicano, aquilo sim seria um final glorioso. Lembrei também de quando terminei com a Kelly e ela vinha chorando com suas calças brancas atrás de mim pelas ruas do Paraíso num balé de abraça, beija, rodopia, chora, pliê, grita, abre os braços, fecha os punhos, ajoelha, juras de amor enquanto eu tentava convence-la de que aquilo era o que restava pra nós depois dela adquirir uma asma alérgica de ciúmes das caipiras do meu cursinho e de os tempos de sexo louco pelos becos terem acabado era só aquilo que restava, dançar. Tinha acabado, era fato, mesmo toda aquela paixão à la Lua de Fel não poderia mais nos manter juntos. 

D 57 – Rogério Sganzerla – Colégio Mackenzie, blá blá blá...

D58 – Equipamentos de áudio e som Phillips instalados em cinemas brasileiros.

Acabaram os envelopes, preciso de álcool e pedir pra ela raspar umas ferrugens...

Volto, engulo seco, cadê o estilete? ... “será que dá pra ver na minha cara assim...” no foyer toca Desafinado, na flauta, Desafina na flauta é muita falta de sacanagem. “My life is to live in solitud” eu lembrava, o Sinatra com aquele portuguesinho safado de buteco aprendido com o Tom, o maior dos safados de buteco. Lembrei das noites no Brooklin dançando nu com Laura, o Sinatra, o Jobim, o Ray Charles, éramos como um corpo só, mesmo com toda minha inabilidade eu rodava minha princesa até caírem pétalas do céu, da lua cheia direto para nossa cama. As horas passavam rasgadas pela agulha da vitrola e nos amávamos como ninguém nunca amou nesse mundo, como que nem tivesse um mundo trás da porta manca. Da janela à minha frente, por entre as persianas, dá pra ver a lua querendo-se cheia, fazendo sombras sinistras com os arames das pastas, doida pra levar minha alma.

D 74 – FIBICI 1967

Lembrei da outra noite, deitado no ponto de ônibus do Conjunto Nacional, olhando pra lua ainda magrinha lá, nem frio não fez pra me desviar do meu pesar. Deitei lá pra esperar, é claro, quem não viria. Só me ponho a esperar quando sei que não vem, se é certo que vem chego depois, pra desmentir amiga falsa e horóscopo de jornal. E quando chego fico atento pra ver se era pra ir mesmo ou se vem bronca. Quando é pra ir é fácil saber, quanto mais dente... mas nessa noite não tinha dente, não tinha olho, não tinha nem bronca pra deixar quente logo, nem isso, e a cabeça voada no raio na noite insípida de um dia desses sozinho querendo achar caroço em suco de manga... #monumentalfail. E nem tem mais como rasgar foto nessa vida, e até nisso fico lembrando... puta merda. #moiô

D 1205 Roman polanski – O bebê de Rosemary – Roteiro traduzido por... (não era pra estar aqui, mas ok)

Um cigarro, água, água, água, continua o cigarro... esfriou rápido, tem até um nevoeiro bem de leve. Os vultos sobem e descem do G4, parece que ninguém tem pressa, só eu... olha pra porta A, porta B, porta A, a lua ta lá, a diretoria acesa... dá um vazio gigante, é fome, muita, cigarro, água e café não dão mais conta. Como outro dia, em 2004, no escadão da Gazeta, tomando esporro, daquela vez tinha sido uma paulada na perna e as solas dos pés queimadas por ter a idéia genial de atravessar das Rendeiras até a Joaquina decalço a uma da tarde, em dezembro... tomei umas 3 horas de esporro, foi lindo, dramático, do fundo mesmo... hoje em dia as coisas não mais amenas, certamente. Certamente eu não faço mais tanta merda, quer dizer, faço, mas os tempos são outros, graças a Jah!

D 75 – Foto do Paulo Emílio em Buenos Aires.

D 71lh0 d4 put4 – Cai o estilete, abaixo. Cai o celular, lapiseira, isqueiro, cigarro, sangue. Um cortinho de merda e um monte de sangue. Lembro de Floripa enquanto vou pra copa. Aquilo sim era sangue, jorrava meeesmo, minha canela rachada no meio e eu com dor no peito. That tipical. Naquele verão eu tinha esperanças, não que não tenha agora, mas naquele... abria minha caixa de e-mails todo dia procurando, e acabei encontrando. Dois anos depois outro corte e um jantar ao qual eu não deveria ter faltado, afinal de contas, não se deixa sua mulher solta numa mesa cheia de artistas plásticos franceses, isso é burrice, não tem o que dizer. O Paulo Emílio me daria um “pedala” se já nos conhecêssemos, já que ele é entendido nesse negócio de artistas e de franceses.

Ah é, acho que não falei dele aqui ainda. Meu chefe, o fantasma que tem acalmado minhas noites de estudos sobre o cinema brasileiro, sobre a vida em rede, sobre as ciências da informação e sobre a alma humana, a começar pela minha, nem sempre tão humana, mas sempre rasgada, escancarada, rei do bafão, descendo a Augusta a 120 bpm com a cara molhada e o olho inchado desse tersol que não passa, dessa vergonha que não se decide, dessa coragem gaga, desse torpor permanente. Paulo é o nome perfeito pro meu guia, pois quem não me conhece sempre acaba me chamando de Paulo, João Paulo. Sei lá, acho que o Paulo ficaria satisfeito, talvez não tanto com o trabalho, que vai bem sim, apesar dos que acham o contrário, mas acho que ele gostaria de ver o quanto se vive naquele lugar, quanta paixão é colocada lá e que aos pouquinhos vai eclodir num nó de caminhos tão intenso que ele se confundirá entre as almas. A paixão não me erra, me arremata, chicoteia, me esmaga. Tudo vai, as pequenas, os trabalhos, as escolas, os colegas, os amigos, mas a paixão fica em mim, eu vivo de paixão e feijão, das coxas, das mesas fartas, da caixa de entrada bombando, das idéias postas, dos abraços, ônibus cheios, palavras grosseiras, roupa de ontem, de gozar juntos, de rir demais... vivo de viver muito, tem gente que vive de viver bem, mas qual a graça de se viver só o bom? Que graça teria morrer no Caribe se eu não fosse da Sul?

2 comentários:

Mara Beatriz disse...

Intenso. Quase invejável, não fosse o abismo incurável. Como não sou eu, fique. Não pare jamais.

Polinha Köstlich disse...

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