Deitou no chão achando que não levantaria mais, suas costas se espalharam na tinta, seus músculos esfriaram, o sangue quis coagular inteiro, fechou os olhos ouvindo garage fuzz, ficou pirando nos tempos de muleque quando não tinha esses perrengues pra resolver, respirou fundo e quando a mesmo música começou de novo abriu os olhos, viu o teto todo manchado pela água podre que escorria dos vazamentos no telhado, fechou os olhos de novo e lembrou de quando lixava o forro de madeira da casa dos pais, nessa época ouvia Pixies, Nirvana, dez anos depois e estava preso a um teto de novo, com os músculos querendo arrebentar, com os olhos querendo fechar. “Pára! Vamos logo com isso caralho!” ralhou como se fosse o próprio patrão, pulou e pegou um cabo de vassoura pra mexer a tinta, não podia parar, nunca pode mas hoje é que não pode mesmo.
Mais umas horas e terminou a pintura do teto, olhou pra baixo e o chão estava mais branco que o teto, olhou pra si e estava mais branco que o teto, mas não coseguiria mais nada naquela noite, partiu pra lavar o chão. Comprara um limpa pedra que diziam milagroso, e era mesmo, passou no chão e não conseguiu mais respirar, era soda cáustica e ácido sulfurico suficientes pra refinar uma tonelada de coca, olhava pra parede e ela não parava de se mexer, as formas geométricas negras pintadas na parede tentavam falar algo, o rolo parecia estar mais pesado e só deu tempo de procurar um lugar seco pra cair.
Acordou de madrugada ainda tonto, sem saber onde estava, se arrastou pra rua, sentou na calçada e olhou pra vizinhança escura e deserta, respirou alguns segundos e entrou pra pegar um cigarro e uma bermuda. Voltou, fumou, acendeu outro na bituca e entrou de volta, pegou uma camisa e voltou pra rua, não pensava direito, estava caindo como se estivesse bêbado, estava, era estafa, já não adiantava mais continuar, aquilo teria que ser suficiente, chegou no bar ainda tonto, pediu um copo d'água, engoliu sem nem ver e pediu outro, deitou a cabeça no balcão observando os vagabundos que lhe fizeram companhia por tantos anos, taxistas, prostitutas, loucos, traficantes, vagabundos de toda a espécie, olhava-os quase com carinho, como que satisfeito por esta ser sua última noite ali com eles. Saiu do bar e foi fumar na calçada, sentou-se no chão e olhou pro céu que já tentava amanhecer, olhou para as mãos trêmulas sujas de tinta e queria entender como tinha chegado até alí. Sabia. Tinha aproveitado o que podia, mas agora não daria mais, agora era a hora de alcançar os líderes, um pique para não perder a esperança, olhou para o céu e ele ficava lilás, olhou para as mãos de novo e viu os calos, os machucados, os cortes, a tinta, as verrugas, viu que é velho e novo ao mesmo tempo, viu que merece o que tem porque é teimoso, viu que não tem nada porque gasta as coisas como se gasta, todos os dias de cada vez, sabe que seus ossos não quebram e sabe que no fundo não precisa sofrer, que cria as próprias dores pra ter sobre o que escrever depois, que chora as perdas pelos outros e não por si, sabe-se objetivo e sabe perder, e como sabe.
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